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Salvador (Itaigara) · atende online

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Como apoiar uma criança autista e a família

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Apoiar uma criança autista significa, ao mesmo tempo, cuidar dela e cuidar de quem a acompanha. Não existe fórmula única, pois cada criança é singular, mas há posturas que costumam favorecer o laço e o bem-estar. Este texto reúne orientações práticas e acolhedoras, centradas no sujeito, sem promessas de resultados e sempre em diálogo com a rede de profissionais que acompanha o caso.

Partir das soluções da criança

Uma das aprendizagens da clínica é que a criança autista costuma construir suas próprias soluções para lidar com o mundo: interesses específicos, rotinas, objetos preferidos, maneiras particulares de brincar. Jean-Claude Maleval (MALEVAL, 2017) destaca o valor desses recursos do sujeito. Em vez de combatê-los, vale reconhecê-los como pontos de apoio a partir dos quais é possível construir comunicação e confiança. O que à primeira vista parece um obstáculo ao contato pode ser, na verdade, a porta de entrada para ele.

Isso significa observar do que a criança gosta, o que a acalma, o que a interessa, e usar esses elementos como pontes. Um interesse intenso, por exemplo, pode ser uma via para o encontro, e não um problema a ser eliminado. Ilustrando de modo genérico e sem identificar ninguém: uma criança que se fascina por um determinado tema pode encontrar nesse tema o terreno comum em que aceita, pouco a pouco, a presença e a fala do outro. Sustentar esse interesse, em vez de pressioná-la a abandoná-lo, costuma abrir mais possibilidades do que forçar um contato que ela ainda não suporta.

Orientações práticas para o dia a dia

As sugestões abaixo são gerais e não substituem a orientação dos profissionais que acompanham a criança. Cada família encontrará, com o tempo, o que faz sentido para a sua realidade.

  • Respeitar o ritmo e o tempo da criança, sem forçar interações.
  • Oferecer previsibilidade e rotinas, comunicando com antecedência as mudanças.
  • Cuidar do ambiente sensorial, atento a sons, luzes e texturas que incomodam.
  • Valorizar as formas de comunicação que a criança já usa, verbais ou não.
  • Reconhecer e nomear conquistas pequenas, sem cobranças excessivas.
  • Manter diálogo constante com a escola e com a equipe de profissionais.

Apoiar não é moldar a criança a um ideal de normalidade. É caminhar ao lado dela, sustentando a aposta de que há um sujeito ali, com seu desejo e suas possibilidades próprias.

Cuidar de quem cuida

A sobrecarga dos cuidadores é real e merece atenção. Culpa, cansaço, medo do futuro e tensões na relação do casal ou da família são experiências frequentes. Cuidar da criança passa, também, por cuidar de si: buscar apoio, dividir tarefas, ter espaços de escuta e não se anular no processo. A psicanálise não responsabiliza a família pelo autismo; ao contrário, oferece um lugar para que essas angústias possam ser ditas. É comum que cuidadores sintam que precisam dar conta de tudo sozinhos, ou que qualquer pausa seja um abandono; nomear esse peso é o primeiro passo para que ele não recaia inteiro sobre uma só pessoa.

As perguntas que as famílias trazem

No cotidiano, as famílias chegam com questões muito concretas, e acolhê-las sem prometer soluções fáceis faz parte do cuidado. “Estou fazendo o suficiente?” Cuidar não é fazer tudo, e a exaustão raramente ajuda a criança; muitas vezes, cuidar melhor é também cuidar de si. “Posso deixar meu filho com seu interesse o tempo todo?” Não há regra única, e essa é uma conversa a se fazer com a equipe que acompanha; em geral, o interesse não é inimigo, mas pode ser um ponto de partida. “Como reagir às crises?” Vale buscar compreender o que as antecede e orientar-se com os profissionais, em vez de procurar uma técnica universal. “E quando me sinto culpado?” A culpa é frequente e merece escuta; ela não é prova de que algo foi feito de errado.

A escola e a rede de apoio

Maria Cristina Kupfer (KUPFER, 2000) ressalta as relações entre psicanálise e educação, lembrando que a escola pode ser um espaço importante de laço e de aprendizagem quando acolhe a criança em sua singularidade. Construir uma boa parceria com educadores, com a equipe terapêutica e com a rede de apoio amplia as possibilidades de cuidado e divide o peso que muitas vezes recai sobre poucos. Uma comunicação aberta entre casa, escola e profissionais evita que orientações se contradigam e ajuda a criança a encontrar, nos diferentes espaços, uma certa coerência que a sustenta.

O lugar do laço afetivo

Marie-Christine Laznik (LAZNIK, 2004) mostrou como os primeiros laços e a troca afetiva participam da constituição do sujeito. Pequenos momentos de encontro, um olhar compartilhado, uma brincadeira que se repete, têm valor e merecem ser sustentados com paciência e presença. Nem sempre o laço se expressa do modo esperado; ele pode aparecer de maneiras singulares, e reconhecê-las exige justamente a disposição de não impor de fora o que se espera, e sim acompanhar o que a criança oferece.

Quando procurar ajuda

Se a família se sente sobrecarregada, com dúvidas sobre como apoiar a criança, ou se percebe que o sofrimento de algum de seus membros precisa de escuta, vale buscar apoio. O acompanhamento pode incluir diferentes profissionais, e a escuta psicanalítica pode caminhar junto, atenta tanto à criança quanto a quem dela cuida. Pedir ajuda é parte do cuidado, não sinal de fracasso.

Referências

  • KUPFER, Maria Cristina M. Educação para o futuro: psicanálise e educação. São Paulo: Escuta, 2000.
  • LAZNIK, Marie-Christine. A voz da sereia: o autismo e os impasses na constituição do sujeito. Salvador: Ágalma, 2004.
  • MALEVAL, Jean-Claude. O autista e a sua voz. Tradução de Procópio Abreu. São Paulo: Blucher, 2017.

Conteúdo informativo, embasado na literatura psicanalítica; não constitui diagnóstico nem substitui atendimento individual.

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