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Salvador (Itaigara) · atende online

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Autismo na vida adulta e diagnóstico tardio

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Nem todas as pessoas autistas são identificadas na infância. Muitos adultos chegam ao chamado diagnóstico tardio, reconhecendo apenas mais tarde experiências que sempre fizeram parte de suas vidas. Compreender esse percurso pode abrir caminhos de autoconhecimento e de cuidado, sem promessas de transformação e com respeito ao tempo de cada um.

Por que tantos diagnósticos chegam tarde

Durante muito tempo, o autismo foi compreendido de forma mais restrita, sobretudo associado a apresentações que se tornavam evidentes na infância. Pessoas com formas menos perceptíveis, que desenvolveram estratégias para se adaptar às exigências sociais, frequentemente passaram despercebidas. Algumas só buscam avaliação na vida adulta, muitas vezes após momentos de esgotamento, dificuldades nas relações ou ao reconhecerem-se em relatos de outras pessoas autistas. Não raro, o diagnóstico de um filho leva um dos pais a se reconhecer também, num efeito em cadeia que reorganiza toda uma história familiar.

Jean-Claude Maleval (MALEVAL, 2017) descreve como pessoas autistas constroem recursos e soluções próprias, que podem incluir interesses intensos, rotinas e formas particulares de lidar com o outro. Em adultos, essas soluções muitas vezes se sofisticaram ao longo da vida, o que pode tornar menos visível, para os outros, o esforço que sustentam. O que de fora parece desenvoltura pode custar, por dentro, um trabalho constante de antecipação e de cálculo do que se espera em cada situação social, um esforço que tende a aparecer no cansaço e no recuo que vêm depois.

Receber um diagnóstico na vida adulta pode ser, para muitos, um alívio: um nome que organiza experiências antes vividas como falha pessoal. Para outros, suscita questões e lutos. Não há uma única forma certa de viver esse momento.

O que muda com o diagnóstico tardio

Um diagnóstico não transforma quem a pessoa é. Ela continua a mesma, com sua história e suas singularidades. O que pode mudar é a relação consigo: compreender o próprio funcionamento muitas vezes reduz a autocobrança e permite organizar a vida de modos mais respeitosos com as próprias necessidades. Isso vale para o trabalho, os relacionamentos e o cuidado com a saúde. Saber, por exemplo, que certos ambientes muito estimulantes geram esgotamento permite planejar pausas e fazer escolhas que antes pareciam apenas “frescura” ou fraqueza.

Autoconhecimento, não rótulo

O diagnóstico não deve se tornar uma prisão ou uma etiqueta que reduz a pessoa. Ele pode ser, ao contrário, uma chave de autoconhecimento. A escuta clínica, na orientação psicanalítica, acompanha a pessoa nessa elaboração, sem tentar moldá-la a um ideal de normalidade. Trata-se de sustentar o sujeito naquilo que o constitui, valorizando suas soluções e seus modos próprios de viver. Há quem tema que o diagnóstico passe a explicar tudo, apagando o restante de quem se é; a clínica do sujeito caminha em sentido oposto, preservando a singularidade que nenhum nome esgota.

A clínica do sujeito adulto e a elaboração da própria história

Falar em clínica do sujeito, na vida adulta, é abrir espaço para que a pessoa reconstrua sua história à luz do que passa a compreender de si. Memórias antes vividas como episódios de inadequação podem ganhar outro sentido; relações tensas podem ser revisitadas; escolhas profissionais e afetivas podem ser repensadas sem o peso do julgamento. A escuta psicanalítica não impõe esse trabalho nem o acelera: oferece um lugar onde ele possa acontecer no tempo de cada um. Ilustrando de modo genérico e sem identificar ninguém, há quem chegue à clínica depois de um período de exaustão no trabalho e descubra, ao falar, que sempre precisou de rotinas que os outros liam como rigidez; há quem reconheça, num interesse intenso de longa data, não um problema, mas justamente o que lhe deu sustentação ao longo dos anos.

A dimensão social e dos direitos

Éric Laurent (LAURENT, 2014) ressalta a importância de reconhecer a pessoa autista como sujeito de direitos e de palavra, para além das classificações. Para adultos, esse reconhecimento tem efeitos concretos: acesso a apoios, respeito às diferenças no ambiente de trabalho e a possibilidade de fazer escolhas a partir do autoconhecimento. O diagnóstico, quando desejado, pode ajudar nesse acesso, mas o valor da pessoa nunca depende de um laudo. Afirmar isso é também uma posição ética: a dignidade de alguém não se mede por um documento, e o cuidado começa por reconhecer a palavra de quem procura escuta.

Quando procurar ajuda

Se você se reconhece em descrições do autismo, sente que sempre teve um modo particular de funcionar, ou vive um sofrimento que gostaria de compreender melhor, vale buscar escuta. A avaliação diagnóstica, quando desejada, é conduzida por profissionais habilitados. O acompanhamento psicanalítico pode caminhar junto, oferecendo um espaço para elaborar a própria história, sem pressa e sem promessas, em respeito ao seu tempo. Buscar ajuda não exige certeza prévia: a dúvida e o desejo de compreender-se já são razões legítimas para procurar uma escuta.

Referências

  • MALEVAL, Jean-Claude. O autista e a sua voz. Tradução de Procópio Abreu. São Paulo: Blucher, 2017.
  • LAURENT, Éric. A batalha do autismo: da clínica à política. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.

Conteúdo informativo, embasado na literatura psicanalítica; não constitui diagnóstico nem substitui atendimento individual.

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