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Diagnóstico de autismo: e agora? Primeiros passos da família
Quando chega um diagnóstico de autismo, muitas famílias descrevem uma mistura difícil de nomear: alívio por finalmente ter um nome, susto diante do desconhecido, e uma enxurrada de informações contraditórias vindas de todos os lados. É comum sentir que é preciso resolver tudo imediatamente. Antes disso, vale uma pausa.
O laudo não esgota a pessoa
Um diagnóstico é uma referência clínica importante, orienta direitos, acessos e cuidados. Mas ele não diz quem é a sua filha, o seu filho, a pessoa que você ama. O autismo nomeia um modo de se relacionar com o mundo, com a linguagem e com o outro; não substitui a singularidade de cada um.
Na perspectiva psicanalítica de orientação lacaniana, o ponto de partida não é encaixar a pessoa num quadro a ser corrigido, mas escutar o sujeito: seus interesses, suas invenções, seu jeito próprio de fazer borda diante do que o angustia.
Antes de perguntar “o que fazer com o autismo”, pode ajudar perguntar “quem é essa pessoa e o que ela já constrói”.
Primeiros passos possíveis
Não existe um roteiro único, e desconfie de quem promete um. Ainda assim, alguns movimentos costumam ajudar a sair da urgência paralisante:
- Respirar e dar tempo ao tempo. A pressa de “recuperar” o desenvolvimento muitas vezes atropela o ritmo da própria pessoa.
- Buscar uma rede, não uma fórmula. Cuidado costuma se fazer entre profissionais, família e escola, articulados, não disputando entre si.
- Desconfiar de promessas de cura ou normalização. O cuidado ético não promete tornar a pessoa “como as outras”; ele amplia laços e possibilidades.
- Cuidar também de quem cuida. Pais e cuidadores precisam de um lugar para falar do cansaço, da culpa e do medo, sem julgamento.
Um lugar para pensar os próximos passos
Marie-Christine Laznik (2004) mostra que há clínica possível e cuidado a oferecer no autismo, longe de qualquer ideal de “consertar” a pessoa. Isso vale também para a família: ter um espaço de escuta ajuda a transformar a angústia do diagnóstico em decisões mais serenas e fiéis ao que aquela pessoa é.
Importante: nenhum diagnóstico se faz por site, questionário ou conversa rápida. O diagnóstico é sempre um ato clínico, em geral multiprofissional. Se você já recebeu uma hipótese ou um laudo e se pergunta “e agora?”, o primeiro passo pode ser simplesmente conversar, para, juntos, pensar o caminho, sem pressa e sem fórmulas prontas.
Referências
- LAZNIK, Marie-Christine. A voz da sereia: o autismo e os impasses na constituição do sujeito. Salvador: Ágalma, 2004.
- MALEVAL, Jean-Claude. O autista e a sua voz. Tradução de Procópio Abreu. São Paulo: Blucher, 2017.
Conteúdo informativo, embasado na literatura psicanalítica; não constitui diagnóstico nem substitui atendimento individual.