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Autismo e psicanálise: uma escuta além do rótulo
A psicanálise de orientação lacaniana se aproxima do autismo não para corrigir ou eliminar diferenças, mas para escutar a pessoa autista como um sujeito, com sua maneira própria de habitar a linguagem e o mundo. Não há aqui promessa de cura ou de normalização: há clínica possível, cuidado a oferecer e um trabalho cuidadoso ao lado da família. Essa escuta convive com o respeito às abordagens baseadas em evidência, sem disputar com elas e sem desqualificar os profissionais que as praticam.
O que significa escutar o sujeito autista
Quando falamos em escuta, não nos referimos apenas a ouvir palavras. Trata-se de uma disposição clínica em acolher a singularidade de cada pessoa: seus interesses, suas formas de comunicação, suas invenções para lidar com o excesso de estímulos e com a presença do outro. O autismo, nessa perspectiva, não é primeiro um déficit a ser preenchido, mas um modo singular de relação com o laço social e com a linguagem. Escutar implica, antes de mais nada, partir do princípio de que há ali um sujeito, e não um conjunto de comportamentos a serem ajustados.
Jean-Claude Maleval (MALEVAL, 2017) descreve como muitas pessoas autistas constroem soluções próprias, frequentemente apoiadas em objetos, em interesses específicos e no que ele chama de recursos do sujeito. Esses recursos não são meros sintomas a serem reduzidos: são, muitas vezes, aquilo que estabiliza a pessoa, que lhe permite suportar a presença do outro e organizar um mundo que de outro modo a invadiria. A clínica psicanalítica busca reconhecer e sustentar essas invenções, em vez de combatê-las. O objetivo não é tornar a pessoa autista semelhante às demais, mas ampliar suas possibilidades de troca e de bem-estar a partir do que já a sustenta. Um interesse aparentemente restrito pode ser, no trabalho clínico, justamente o ponto pelo qual um laço começa a se tecer.
Escutar não é interpretar tudo, nem preencher o silêncio. É oferecer uma presença discreta, que respeita o tempo e o ritmo de cada sujeito e que aposta que ali há alguém a quem dirigir-se.
Uma escuta que não compete com a evidência
É importante deixar claro: a psicanálise não se opõe às abordagens baseadas em evidência, nem desqualifica os profissionais que as praticam. O acompanhamento do autismo é, com frequência, um trabalho de muitas mãos, e cada campo contribui de um lugar diferente. A psicanálise oferece uma escuta sobre a posição subjetiva, sobre o sofrimento, sobre o desejo e sobre os impasses da família, sem reivindicar ser a melhor ou a única via. Reconhecer os limites do próprio campo é, aqui, parte da ética: nenhuma abordagem detém a totalidade do cuidado, e a colaboração entre áreas costuma beneficiar quem está sendo acompanhado.
Éric Laurent (LAURENT, 2014) lembra que o debate em torno do autismo foi por vezes marcado por oposições rígidas, e propõe um deslocamento: em lugar de disputas entre escolas, o que está em jogo é o reconhecimento da pessoa autista como sujeito de direitos e de palavra. A orientação lacaniana, nesse sentido, soma-se ao cuidado coletivo, respeitando o trabalho de fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, médicos, educadores e equipes especializadas. A clínica do sujeito, longe de ser uma alternativa que exclui as demais, encontra seu lugar precisamente na articulação com elas, atenta àquilo que, de cada pessoa, não se reduz a um protocolo.
O lugar da família
A família é parte fundamental desse trabalho. Pais, mães e cuidadores frequentemente chegam atravessados por culpa, cansaço e dúvidas. A psicanálise não responsabiliza a família pelo autismo. Ao contrário, oferece um espaço para que essa angústia possa ser falada, para que cada um encontre um modo mais sustentável de acompanhar a criança ou o adulto autista sem se anular no processo. É comum, por exemplo, que cuidadores cheguem exaustos depois de meses tentando seguir orientações sem encontrar tempo para a própria escuta; ou que se sintam isolados, como se o cansaço fosse uma falha pessoal. Acolher essa fala, sem julgar, já é parte do cuidado.
- Acolher o sofrimento dos cuidadores sem julgamento.
- Reconhecer e valorizar as soluções que a própria pessoa autista já encontrou.
- Construir, com o tempo, possibilidades de comunicação e de laço.
- Articular o trabalho clínico com a rede de profissionais que acompanha o caso.
A clínica do sujeito e a constituição do laço
Falar em clínica do sujeito é situar a pessoa autista para além das classificações. Cada pessoa tem uma história, um modo singular de se haver com a linguagem, com o corpo e com a presença dos outros. Marie-Christine Laznik (LAZNIK, 2004) descreveu a importância dos primeiros laços e da voz na constituição do sujeito, mostrando como pequenos movimentos de troca afetiva podem ter grande valor clínico. A circularidade entre o gesto de quem cuida e a resposta de quem é cuidado, ainda que sutil, é território fértil para a clínica. Não se trata de produzir respostas esperadas, mas de sustentar a aposta de que algo do laço pode se constituir, no tempo de cada um.
Para ilustrar, de modo genérico e sem identificar ninguém: em alguns acompanhamentos, é a partir de um objeto preferido ou de um som repetido que se abre um primeiro canal de contato; em outros, é o respeito ao silêncio, sem a pressa de preenchê-lo, que permite que algo se enderece. Não há regra geral, e cada percurso ensina o clínico a recomeçar.
Há clínica possível
Dizer que há clínica possível não é prometer resultados ou transformações garantidas. É afirmar que o encontro clínico pode abrir espaço para que algo se mova: uma palavra que surge, um olhar que se dirige, um gesto compartilhado. Essa aposta convive com a humildade de não saber de antemão o que advirá, e com o cuidado de não transformar a expectativa do clínico em exigência sobre o sujeito. As famílias muitas vezes perguntam se vão notar mudanças, em quanto tempo, se aquilo vai funcionar. A resposta honesta é que o trabalho clínico não opera com promessas, e sim com a sustentação de um espaço onde o sujeito possa se manifestar à sua maneira.
Quando procurar ajuda
Procurar ajuda não exige um diagnóstico fechado nem uma certeza prévia. Se você é uma pessoa autista, ou acompanha alguém que é, e sente que há um sofrimento, dúvidas ou impasses no laço com o outro, vale buscar escuta. O acompanhamento psicanalítico pode caminhar junto com a avaliação e o tratamento conduzidos por outros profissionais. O cuidado é sempre coletivo, e nenhuma abordagem precisa anular as demais. Buscar apoio não é sinal de fracasso, mas um gesto de cuidado consigo e com quem se ama.
Referências
- LAURENT, Éric. A batalha do autismo: da clínica à política. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.
- MALEVAL, Jean-Claude. O autista e a sua voz. Tradução de Procópio Abreu. São Paulo: Blucher, 2017.
- LAZNIK, Marie-Christine. A voz da sereia: o autismo e os impasses na constituição do sujeito. Salvador: Ágalma, 2004.
Conteúdo informativo, embasado na literatura psicanalítica; não constitui diagnóstico nem substitui atendimento individual.