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Salvador (Itaigara) · atende online

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Não sei o que eu quero: a questão do desejo

Por · publicado em

“Eu deveria saber o que quero, mas não sei.” A frase chega cansada, às vezes envergonhada, como se confessasse uma falha. Numa época que cobra metas claras e escolhas otimizadas, não saber o que se deseja parece um atraso a corrigir. A psicanálise escuta isso de outro jeito: a dificuldade de saber o que se quer não é um problema de informação, e sim uma questão que toca o ponto mais íntimo de cada um, o desejo.

O desejo não é a vontade

Há uma diferença entre vontade e desejo. A vontade quer um objeto: um cargo, uma viagem, uma resposta. O desejo é mais escorregadio, ele não se satisfaz inteiramente com nenhum objeto, porque está sempre apontando para algo a mais, para uma falta que o move. Por isso listas de prós e contras costumam decepcionar: elas respondem à pergunta “o que é melhor?”, mas não à pergunta “o que eu quero?”. E essa segunda não se responde de fora.

Querer pelo desejo do outro

Muitas vezes, o que tomamos por nossos desejos foi modelado pelo desejo de outras pessoas. Crescemos tentando corresponder ao que esperavam de nós, e isso pode funcionar por anos, até que algo trava. Lacan dizia que o desejo do sujeito é, em sua origem, o desejo do Outro: aprendemos a querer pelo desejo daqueles que nos cercaram. O impasse do “não sei o que quero” surge, com frequência, no momento em que essa fórmula herdada não basta mais e a pergunta retorna por conta própria.

Sustentar a pergunta em vez de calá-la

O incômodo de não saber costuma empurrar para uma saída rápida: qualquer escolha para acabar com a angústia. Mas decidir às pressas para silenciar a dúvida raramente toca o que está em jogo. Na análise, o “não sei” não é um defeito a ser preenchido com respostas prontas; é um ponto de partida. Sustentar a pergunta, falar em torno dela, deixar que ela revele o que se repete e o que se cala, esse trabalho aos poucos permite que algo do desejo próprio se delineie.

Não se trata de descobrir uma resposta escondida em algum lugar, como quem acha uma chave perdida. Trata-se de construir, na fala e no tempo de cada um, uma posição menos colada ao que esperam, e mais aberta àquilo que, afinal, faz você desejar.

Referências

  • LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
  • FREUD, Sigmund. À guisa de introdução ao narcisismo (1914). In: Obras completas, v. 12. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

Conteúdo informativo, embasado na literatura psicanalítica; não constitui diagnóstico nem substitui atendimento individual.

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