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Autoestima: além das frases motivacionais
A autoestima não é um interruptor que se liga repetindo frases positivas diante do espelho. Ela diz respeito a como cada pessoa se relaciona com a própria imagem, com seus ideais e com o lugar que ocupa no olhar do outro. Por isso, mais do que prometer elevar a autoestima, a psicanálise propõe escutar o que essa queixa esconde.
O que costumamos chamar de baixa autoestima
No senso comum, baixa autoestima virou sinônimo de pensar mal de si mesmo, e a solução proposta seria pensar bem. Esse raciocínio, embora bem-intencionado, ignora algo central: ninguém escolhe conscientemente se desvalorizar. Há uma trama de exigências, comparações e expectativas que sustenta esse mal-estar, e ela quase nunca cede a um esforço de vontade. Quem já tentou se convencer de que vale a pena sabe que a convicção não obedece à ordem que lhe damos.
Quando alguém diz eu não me acho bom o suficiente, vale perguntar: suficiente para quem? Em relação a qual ideal? Frequentemente, a medida do próprio valor está calcada em parâmetros que a pessoa herdou sem perceber, vindos da família, da cultura ou de figuras de referência. Há quem viva a vida adulta inteira tentando alcançar uma medida que foi inscrita na infância, sem nunca ter parado para perguntar se ainda a subscreve. A queixa de baixa autoestima costuma ser, no fundo, uma forma de dizer que se está em dívida com uma exigência cuja origem se desconhece.
A imagem de si não nasce de dentro
Lacan descreve, em seu texto sobre o estádio do espelho, como a criança pequena se reconhece numa imagem unificada antes mesmo de ter domínio sobre o próprio corpo (LACAN, 1949). Essa imagem é, de saída, recebida de fora: é o olhar de quem cuida que sustenta e nomeia esse é você. Em outras palavras, a relação com a própria imagem é, desde o início, dependente do outro. Não se trata de uma fragilidade que adquirimos por azar, mas da própria forma como o eu se constitui.
Isso ajuda a entender por que a autoestima é tão sensível ao reconhecimento alheio. Não se trata de fraqueza de caráter, mas de uma estrutura: a imagem de si se constitui no olhar e no reconhecimento do outro. Distinguir a imagem especular, aquela que vemos refletida, do olhar do outro, que a investe de valor, é um passo importante para não reduzir a questão a autocontrole. A imagem pode estar lá, intacta, e ainda assim faltar o olhar que a sustente como valiosa; é por isso que tantas pessoas se descrevem como objetivamente competentes e, ao mesmo tempo, profundamente inseguras.
Repetir que se ama não basta quando o problema é justamente saber quem dita o que mereceria ser amado.
O desejo por trás da queixa
Freud, ao tratar do narcisismo, mostra que cada sujeito constrói um ideal de eu, uma referência do que gostaria de ser, e mede a si mesmo por essa régua (FREUD, 1914). Quando a distância entre o que se é e esse ideal parece intransponível, surge o sofrimento que nomeamos como baixa autoestima. O ideal de eu não é, em si, um problema: ele orienta, dá direção, sustenta projetos. Torna-se fonte de mal-estar quando se enrijece, quando passa a funcionar menos como bússola e mais como tribunal.
A pergunta clínica, então, não é como me sentir melhor agora, mas:
- De onde vêm os ideais que me julgam?
- A quem eu tento agradar ou impressionar sem perceber?
- O que eu desejo, para além do que esperam de mim?
Essas perguntas não têm respostas prontas. Elas se elaboram ao longo do tempo, numa escuta que não busca convencer ninguém de seu valor, mas abrir espaço para que outra relação com a própria imagem se torne possível. Costuma ser revelador, no percurso de uma análise, o momento em que alguém percebe que vinha medindo a própria vida por desejos que nunca foram seus, mas de um pai, de uma mãe, de um meio. Reconhecer isso não dissolve a dor de imediato, mas desloca o lugar de onde ela é vivida.
O olhar do outro como referência permanente
Há uma ilusão tentadora na ideia de uma autoestima totalmente independente, que não precisaria de ninguém. Mas, se a imagem de si nasce no olhar do outro, esse outro não desaparece quando crescemos. Ele se interioriza, se desdobra em vozes, em públicos imaginários diante dos quais nos apresentamos mesmo quando estamos sós. Quem sofre de desvalorização costuma carregar uma plateia interna severa, que comenta cada gesto e antecipa cada julgamento.
Pensemos em alguém que recebe um elogio sincero e imediatamente o desacredita, ou em quem só consegue descansar depois de ter agradado a todos ao redor. Não é vaidade nem capricho: é a marca de um valor próprio que ficou demasiadamente atrelado à aprovação. A escuta clínica não promete eliminar esse outro interno, o que seria tanto impossível quanto indesejável, mas permite afrouxar a tirania de seu veredicto, perguntando de quem, afinal, é aquela voz.
Por que frases motivacionais não sustentam
Frases de efeito podem oferecer alívio momentâneo, e isso não é desprezível. O limite é que elas operam no nível da imagem consciente, sem tocar a trama de desejo e de ideais que organiza o mal-estar. É como pintar a parede sem cuidar da infiltração: a aparência muda, a causa permanece. Há ainda um efeito paradoxal pouco notado: quanto mais alguém precisa repetir que é capaz, mais reafirma, em surdina, a dúvida que tenta calar. A insistência denuncia o que pretende encobrir.
A psicanálise não promete uma autoestima inabalável, até porque uma imagem de si rígida e sempre positiva costuma ser tão custosa quanto seu oposto. Quem precisa estar sempre por cima vive em estado de alerta, temendo a queda. O que se busca, na escuta, é uma posição mais habitável, em que o valor de si não dependa inteiramente do aplauso ou da aprovação alheia, e em que falhar deixe de ser uma sentença sobre quem se é.
Quando procurar ajuda
Vale buscar escuta quando a desvalorização de si interfere no trabalho, nos estudos, nos relacionamentos ou no cuidado com o corpo, quando vem acompanhada de tristeza persistente, isolamento ou pensamentos de menos-valia que não cessam. Procurar um psicólogo ou psicanalista não é sinal de fragilidade, e sim de abrir espaço para que essas questões possam ser ditas e elaboradas.
Referências
- LACAN, Jacques. O estádio do espelho como formador da função do eu (1949). In: Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
- FREUD, Sigmund. À guisa de introdução ao narcisismo (1914). In: Obras completas, v. 12. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
Conteúdo informativo, embasado na literatura psicanalítica; não constitui diagnóstico nem substitui atendimento individual.