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Salvador (Itaigara) · atende online

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Autocrítica excessiva: de onde vem essa voz dura?

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Há uma voz que comenta tudo por dentro: “podia ter feito melhor”, “ninguém vai gostar disso”, “você não é suficiente”. Para quem a carrega, ela soa como a própria verdade, um juízo neutro sobre quem se é. A psicanálise desconfia dessa naturalidade. Essa voz tem história, tem origem e, sobretudo, fala em nome de alguém.

Uma voz que veio de fora

Ninguém se julga no vazio. Freud descreveu uma instância psíquica que observa, mede e condena o eu, uma espécie de tribunal interno formado a partir das primeiras figuras de autoridade e dos ideais que herdamos (FREUD, 1914). O que parece um diálogo íntimo é, muitas vezes, a repetição de exigências que um dia vieram de fora: de um pai, de uma mãe, de uma escola, de um ideal de perfeição que se tornou tão familiar que perdeu o sotaque alheio.

A autocrítica, então, não é só um defeito de caráter nem uma falha de autoconfiança a ser corrigida com frases motivacionais. Ela é um modo de o sujeito se manter ligado a um ideal, e, paradoxalmente, uma forma de tentar ser amado por ele. Quanto mais alta a exigência, mais o reconhecimento parece escapar.

O gozo escondido na cobrança

Algo curioso acontece com a crítica feroz a si mesmo: ela não para. Mesmo quando machuca, insiste. Isso porque, para além do sofrimento, há uma satisfação obscura em se castigar, uma forma de o sujeito ocupar um lugar, de manter viva uma relação com aquele que cobra. Reconhecer isso não é culpar quem sofre; é abrir a possibilidade de escutar o que essa voz protege, do que ela talvez esteja tentando salvar.

Escutar a voz, não obedecê-la

Na análise, não se trata de calar a autocrítica à força nem de substituí-la por afirmações positivas. Trata-se de fazer essa voz falar: de quem é esse tom? Quando começou? A quem ela responde quando diz que você não é suficiente? À medida que o que parecia uma verdade absoluta revela suas costuras e seus endereços, o sujeito ganha alguma distância. A voz não desaparece por decreto, mas deixa de ser a única que se ouve.

Perceber que a régua pela qual você se mede foi feita por outras mãos é um começo. Não para trocar de régua, mas para começar a perguntar o que, afinal, você quer medir.

Referências

  • FREUD, Sigmund. À guisa de introdução ao narcisismo (1914). In: Obras completas, v. 12. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
  • LACAN, Jacques. O estádio do espelho como formador da função do eu (1949). In: Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

Conteúdo informativo, embasado na literatura psicanalítica; não constitui diagnóstico nem substitui atendimento individual.

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