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Salvador (Itaigara) · atende online

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Remédio para ansiedade ou terapia? O que cada um faz

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Remédio ou terapia? A pergunta sugere uma escolha entre dois caminhos opostos, mas essa oposição é, na maior parte das vezes, falsa. Medicação e escuta analítica atuam em planos diferentes e, com frequência, são complementares. A psicanálise não substitui nem se opõe ao tratamento medicamentoso, e jamais deve desencorajar um tratamento prescrito por médico.

O que cada abordagem faz

É importante deixar claro de saída: a prescrição, o ajuste e a retirada de qualquer medicação são atos médicos. Quem avalia a necessidade de um remédio, qual medicamento, em que dose e por quanto tempo é o médico, em geral o psiquiatra. Nenhum psicólogo ou psicanalista orienta medicação, e este texto também não tem essa finalidade. O que se pode oferecer aqui é apenas um esclarecimento sobre planos distintos de cuidado, para que a pessoa chegue mais bem informada às decisões que cabem ao seu médico e a ela mesma.

O que a medicação pode oferecer

Quando indicada por um médico, a medicação pode atuar sobre a intensidade dos sintomas, ajudando a reduzir o nível de angústia, melhorar o sono ou conter crises que estão tornando a vida insuportável. Em muitos casos, ela cria condições para que a pessoa consiga, inclusive, sustentar um trabalho de escuta. Se um médico prescreveu uma medicação, essa indicação deve ser seguida e conversada com ele, nunca interrompida por conta própria. Reduzir ou suspender um remédio sem orientação pode trazer riscos, e qualquer dúvida sobre efeitos, doses ou tempo de uso deve ser levada ao profissional que prescreveu.

O que a escuta analítica pode oferecer

A psicanálise trabalha em outro registro. Ela não busca apenas diminuir a intensidade do sintoma, mas escutar o que ele diz. Freud mostrava que o sintoma e a angústia respondem a um conflito psíquico, sendo tentativas do sujeito de lidar com algo que se tornou difícil de suportar (FREUD, 1926). A escuta visa dar palavra a esse conflito, permitindo que aquilo que se repete possa, no tempo de cada um, ser elaborado. Não se trata de uma corrida para silenciar o que incomoda, mas de um trabalho mais lento, que pergunta de onde vem o sofrimento e o que ele tenta dizer.

Reduzir a intensidade do sofrimento e escutar o que o sofrimento diz são tarefas distintas e, muitas vezes, igualmente necessárias.

Por que costumam caminhar juntas

Imagine alguém em meio a crises intensas, sem dormir e sem conseguir trabalhar. Nesse estado, falar e elaborar pode ser muito difícil, porque a urgência do sofrimento ocupa todo o espaço. A medicação, quando indicada pelo médico, pode aliviar o suficiente para que a pessoa volte a ter condições de pensar e de se escutar. Por outro lado, apenas reduzir a intensidade do sintoma, sem investigar o que ele aponta, pode deixar intacta a fonte do mal-estar, e o sofrimento tende a retornar quando as circunstâncias se repetem.

Lacan situa a angústia como um afeto que não engana, que indica algo real do sujeito (LACAN, 1962-1963). Esse algo não desaparece só porque a intensidade do afeto diminui. Daí a possibilidade de uma articulação: o cuidado médico atuando sobre a urgência e a intensidade, e a escuta analítica sustentando o trabalho mais lento de elaboração. Não são adversários; são funções diferentes que, bem coordenadas, podem se somar.

Como decidir o que procurar

  • Procure um médico, preferencialmente psiquiatra, para avaliar a necessidade de medicação e conduzir esse tratamento;
  • Procure um psicólogo ou psicanalista para iniciar um trabalho de escuta e elaboração;
  • Saiba que as duas coisas podem acontecer ao mesmo tempo, e que muitos pacientes se beneficiam dessa articulação;
  • Nunca interrompa, inicie ou ajuste medicação por conta própria: converse sempre com o médico responsável.

Desfazendo equívocos comuns

Em torno desse tema circulam ideias que merecem ser desfeitas com calma. Uma delas é a de que tomar remédio significa fraqueza ou que a pessoa não está se esforçando o bastante. A intensidade de uma crise não é medida de caráter, e buscar recursos para atravessar um momento difícil é, ao contrário, um gesto de cuidado. Outra ideia frequente é a de que a medicação muda quem a pessoa é, apaga sua personalidade. Essas são questões clínicas que cabem ao médico avaliar e acompanhar caso a caso; não devem ser respondidas por suposições nem por conta própria.

Há também quem tema que iniciar uma análise seja sinal de que vai precisar de remédio, ou que tomar remédio dispensa qualquer fala. Nenhuma das duas coisas se sustenta. São percursos independentes que podem ou não se cruzar, conforme a necessidade de cada pessoa e a avaliação dos profissionais envolvidos. A decisão de articular um ao outro, ou de seguir só por um caminho em determinado momento, é sempre singular.

Uma decisão singular

Não existe uma fórmula única que sirva a todos. Para algumas pessoas, em determinado momento, o acompanhamento médico será central; para outras, ou em outro momento, a escuta poderá ocupar o primeiro plano. Frequentemente, os dois caminhos se sustentam mutuamente. O essencial é que cada pessoa seja ouvida em sua singularidade, sem que se oponha o que pode somar. Quando médico e analista trabalham cada um em seu lugar, sem disputar terreno, quem se beneficia é a pessoa que sofre.

Quando procurar ajuda

Vale buscar apoio quando a ansiedade compromete o sono, o trabalho, os relacionamentos ou o prazer de viver, e especialmente diante de crises intensas, sofrimento extremo ou pensamentos de desesperança. Nesses casos, a avaliação médica é importante e não deve ser adiada. A escuta analítica pode caminhar junto, oferecendo um espaço para que o sofrimento ganhe palavras ao longo do tempo.

Referências

  • FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia (1926). In: Obras completas, v. 17. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
  • LACAN, Jacques. O seminário, livro 10: a angústia (1962-1963). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

Conteúdo informativo, embasado na literatura psicanalítica; não constitui diagnóstico nem substitui atendimento individual.

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