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Salvador (Itaigara) · atende online

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Ansiedade tem cura? O que a psicanálise responde

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A pergunta sobre se a ansiedade tem cura é compreensível, mas ela própria merece ser repensada. A psicanálise não promete eliminar a angústia como quem desliga um interruptor; ela propõe outra coisa: escutar o que a ansiedade tenta dizer e construir, no tempo de cada um, uma relação menos sofrida com aquilo que angustia. O objetivo não é apagar, mas elaborar.

Por que falar em cura pode ser enganoso

A palavra cura, quando aplicada ao sofrimento psíquico, costuma carregar a ideia de um retorno a um estado de pureza, sem qualquer angústia. Acontece que certa dose de angústia é parte da condição humana. Freud, ao discutir o mal-estar que acompanha a vida em sociedade, mostrou que não existe felicidade plena e contínua disponível ao ser humano: viver implica renúncias, conflitos e tensões inevitáveis (FREUD, 1930). Toda vida em comum exige abrir mão de algo, e nessa renúncia há um resto de insatisfação que nenhum tratamento elimina, porque ele é o preço de viver entre os outros.

Isso não significa resignação diante do sofrimento. Significa diferenciar a angústia que faz parte de estar vivo daquela que paralisa, que se repete e que estreita a existência. Há uma inquietação que move, que acompanha decisões importantes, que sinaliza que algo está em jogo; e há uma angústia que congela, que impede de dormir, de trabalhar, de amar. Prometer a supressão total de toda angústia seria, além de eticamente problemático, irreal. O que se pode trabalhar é a maneira como cada pessoa se posiciona diante daquilo que a angustia.

O modelo do interruptor e por que ele falha

Vivemos numa época que trata o mal-estar como algo a ser removido o quanto antes, de preferência sem deixar vestígios. Essa expectativa, compreensível, esbarra num fato clínico: o sintoma costuma cumprir uma função. Ele não é apenas um excesso a ser cortado; muitas vezes é uma solução, ainda que custosa, para um conflito que o sujeito não consegue resolver de outro modo. Suprimir o sintoma sem escutá-lo é como apagar a luz de aviso de um painel sem verificar o que ela sinaliza. Por isso a promessa de cura imediata pode, paradoxalmente, manter a pessoa presa: alivia a superfície e deixa intacta a raiz.

Pense em alguém que, diante de uma exigência impossível de dar conta, desenvolve uma ansiedade que o impede de comparecer. À primeira vista, a ansiedade é o problema. Olhando mais de perto, ela talvez seja a única forma que esse sujeito encontrou de dizer não a algo que não suportava. Calar essa ansiedade sem escutar o não que ela carrega pode fazer o conflito retornar por outra via, em outro sintoma.

O que a psicanálise propõe no lugar da promessa de cura

Em vez de combater o sintoma como inimigo, a escuta analítica parte de uma hipótese diferente: o sintoma tem uma função e diz algo do sujeito. Freud já localizava o sintoma e a angústia como formações que respondem a um conflito interno, tentativas de lidar com aquilo que se tornou insuportável (FREUD, 1926). Calar o sintoma à força, sem escutá-lo, pode fazê-lo retornar por outra via.

Não se trata de eliminar a angústia, mas de transformar a relação do sujeito com aquilo que o angustia, dando-lhe palavra, história e algum sentido.

Lacan situa a angústia como um afeto que não engana, que aponta para algo verdadeiro do sujeito (LACAN, 1962-1963). Por isso, em vez de tratá-la apenas como ruído a ser eliminado, a clínica a toma como bússola. Ao falar, associar livremente e seguir os fios do próprio discurso, a pessoa pode encontrar ligações que não percebia e, com elas, alguma margem de movimento onde antes só havia repetição. A angústia, então, deixa de ser apenas um obstáculo e passa a ser um indicador de onde algo essencial está em jogo.

O que pode mudar ao longo de um processo

  • A angústia pode deixar de ser uma força anônima e ganhar contornos, histórias e palavras;
  • As crises podem se tornar menos frequentes ou menos avassaladoras, à medida que algo se elabora;
  • A pessoa pode descobrir o que, em sua vida, alimentava o sofrimento sem que ela soubesse;
  • Pode surgir uma posição mais autoral diante das próprias escolhas e dos próprios desejos.

Nada disso obedece a um cronograma. Cada processo tem seu ritmo, e a psicanálise respeita esse tempo singular. Falar em prazos ou garantias seria trair a própria natureza do trabalho. Há quem note mudanças após algum tempo de fala; há quem precise atravessar idas e vindas. O importante é que o movimento, quando acontece, parte da própria pessoa, e não de uma fórmula aplicada de fora.

Cura como reposicionamento, não como apagamento

Se quisermos manter a palavra cura, talvez seja melhor entendê-la como um deslocamento: passar de uma posição em que se é tomado pela angústia, sem entender por quê, para uma posição em que se pode dizer algo sobre ela, situá-la e suportá-la de outro modo. Não é o fim de toda inquietação, mas o fim de uma certa servidão ao sintoma. A pessoa deixa de ser puro objeto da angústia e volta a ser sujeito daquilo que vive.

Essa perspectiva pode soar menos sedutora do que a promessa de eliminar a ansiedade de vez. Ela é, porém, mais honesta e, com frequência, mais transformadora. O sofrimento deixa de ser um bloco maciço e passa a ser algo que se pode interrogar. Quando a angústia ganha história, ela perde parte do seu caráter de fatalidade: já não é mais um destino, mas uma questão sobre a qual se pode trabalhar.

Quando procurar ajuda

É recomendável buscar apoio quando a ansiedade se torna frequente, intensa ou começa a comprometer o trabalho, o sono, os vínculos e o prazer de viver. Vale também procurar escuta quando há a sensação de estar repetindo sempre o mesmo padrão de sofrimento sem conseguir sair dele. Em casos de crises intensas, sofrimento extremo ou pensamentos de desesperança, é importante procurar ajuda profissional sem demora, incluindo avaliação médica quando indicado.

Referências

  • FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia (1926). In: Obras completas, v. 17. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
  • LACAN, Jacques. O seminário, livro 10: a angústia (1962-1963). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.
  • FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). In: Obras completas, v. 18. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

Conteúdo informativo, embasado na literatura psicanalítica; não constitui diagnóstico nem substitui atendimento individual.

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