Pular para o conteúdo
Salvador (Itaigara) · atende online

Uncategorized

Amor e demanda: o que pedimos ao outro

Por · publicado em

Quando amamos, pedimos ao outro muito mais do que aquilo que dizemos com palavras: por trás de cada pedido concreto há uma demanda de amor, o desejo de ser reconhecido e desejado por ele. Compreender essa diferença entre o que se pede e o que se demanda ajuda a entender muitos desencontros no laço. Lacan oferece uma chave preciosa para escutar isso.

Da necessidade à demanda

Há aquilo de que precisamos, como cuidado, atenção, presença. Mas, no humano, a necessidade nunca chega pura: ela passa pela linguagem, e ao pedir algo a alguém, pedimos também que esse alguém nos escute, nos considere, nos ame. É por isso que, mesmo quando o outro atende exatamente ao que pedimos, pode restar uma insatisfação. O que faltou não estava no objeto do pedido, mas na demanda de amor que o acompanhava.

Lacan trabalha justamente essa diferença ao mostrar que toda demanda, no fundo, é demanda de amor (LACAN, 1960-1961). Quando peço um copo de água, peço água; mas peço também que o outro responda à minha presença, que me dê um sinal de que importo para ele. Por isso, no amor, o que se pede e o que se quer raramente coincidem por inteiro. Esse intervalo entre o pedido literal e a demanda que o habita é o terreno onde nascem mal-entendidos: o parceiro pode atender ao que foi dito e, ainda assim, deixar intocado aquilo que de fato se esperava dele.

Amar é dar o que não se tem

Uma das formulações mais conhecidas de Lacan diz que amar é dar o que não se tem (LACAN, 1960-1961). À primeira vista soa enigmático, mas tem um sentido preciso: no amor, oferecemos ao outro não um objeto que possuímos, mas justamente a nossa própria falta, o reconhecimento de que também desejamos e somos incompletos. Amar não é preencher o outro, e sim reconhecer, em si e nele, um desejo que nunca se satisfaz totalmente.

É aqui que muitos sofrimentos amorosos se enredam. Quando esperamos que o parceiro nos complete, que apague toda falta e responda integralmente à nossa demanda, ficamos reféns de uma exigência impossível. O outro nunca dará tudo, porque ninguém possui essa totalidade. E o que se repete nas relações, a mesma queixa, a mesma decepção, costuma ter a ver com essa demanda que insiste em pedir o que não pode ser dado. A frustração, então, não vem de o parceiro ser inadequado, mas de uma promessa que nenhum amor pode cumprir: a de suprimir definitivamente a falta.

Como a demanda aparece nas relações

  • Pedir provas constantes de amor que, mesmo recebidas, nunca bastam.
  • Sentir-se frustrado quando o outro atende ao pedido literal, mas “não do jeito certo”.
  • Transformar gestos cotidianos em medida do quanto se é amado.
  • Esperar que o parceiro adivinhe o que não foi dito.
  • Confundir desejo com garantia, querendo do amor uma certeza que ele não oferece.

Demanda e desejo: uma diferença decisiva

Há uma distinção que a psicanálise sublinha e que muda bastante o modo de habitar um relacionamento: a diferença entre demanda e desejo. A demanda se dirige sempre a um outro e pede uma resposta, uma prova, uma garantia; ela quer ser saciada e, quando o é, logo se renova sob outra forma, pois no fundo nunca se trata apenas do que se pediu. O desejo, por sua vez, não busca ser saciado; ele se sustenta justamente da falta, do que escapa, do que permanece em aberto. Confundir os dois leva a tentar tapar com provas de amor aquilo que só o desejo pode manter vivo.

Quando uma relação se reduz a uma demanda incessante, cada um espera do outro a resposta definitiva que encerraria a dúvida, e o vínculo se torna um campo de cobranças e decepções. Quando há lugar para o desejo, ao contrário, a falta deixa de ser um defeito a corrigir e passa a ser o que mantém o interesse mútuo, a curiosidade, o movimento de querer o outro sem precisar possuí-lo por inteiro. Suportar que o parceiro tenha um desejo próprio, que não se esgota em nós, é o que permite que ele continue sendo, justamente, alguém que se deseja.

Do pedir ao desejar

A psicanálise não propõe deixar de demandar, o que seria impossível, mas escutar o que há por trás das nossas demandas. Freud já observava como, na relação com o analista, repetimos nossos modos antigos de amar e de pedir (FREUD, 1912); o mesmo se passa nos vínculos amorosos, onde reencontramos endereçamentos muito anteriores ao parceiro atual. Tornar isso audível permite que algo se desloque. Reconhecer que dirigimos ao outro de hoje pedidos que vêm de muito antes é o primeiro passo para não fazê-lo responder por uma dívida que não é dele.

Quando o sujeito reconhece a demanda que o habita, pode passar da exigência de ser completado para a abertura ao desejo, o seu e o do outro. Isso não torna o amor menos intenso; ao contrário, permite um laço em que cada um possa existir como sujeito desejante, e não como objeto encarregado de tapar a falta alheia. É um percurso que se faz no tempo de cada análise, e que não promete um amor sem falhas, mas um amor em que a falta deixe de ser apenas fonte de sofrimento para se tornar, também, o que mantém vivo o desejo de estar com o outro.

No amor, pedimos sempre mais do que palavras: pedimos uma prova de que somos desejados. Escutar essa demanda é o que permite passar da exigência de completude ao encontro com o desejo.

Quando procurar ajuda

Se você percebe que as mesmas insatisfações e cobranças se repetem em seus relacionamentos, ou que o amor vem sempre acompanhado de uma sensação de falta que nada parece preencher, pode ser valioso escutar o que sustenta essa demanda. A psicoterapia de orientação psicanalítica oferece um espaço para esse trabalho, no respeito ao seu tempo e à sua singularidade.

Referências

  • FREUD, Sigmund. A dinâmica da transferência (1912). In: Obras completas, v. 10. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
  • LACAN, Jacques. O seminário, livro 8: a transferência (1960-1961). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.

Conteúdo informativo, embasado na literatura psicanalítica; não constitui diagnóstico nem substitui atendimento individual.

Falar sobre isso pode ajudar