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Salvador (Itaigara) · atende online

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Ciúmes excessivos: o que há por trás

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O ciúme excessivo raramente diz respeito apenas ao que o outro faz; ele aponta para uma inquietação mais antiga, ligada ao modo como cada um se sustenta no amor. Por trás da vigilância e da suspeita, costuma haver uma pergunta angustiada sobre o próprio valor diante do desejo do parceiro. Não se trata de defeito de caráter, mas de um sofrimento no laço que pode ser escutado.

Quando o ciúme deixa de ser ocasional

É comum sentir algum ciúme; ele acompanha a experiência de amar alguém e de saber que esse alguém é separado de nós, com sua própria vida e seu próprio desejo. Há nesse sentimento, em sua forma cotidiana, algo que apenas reconhece que o outro existe para além de nós e que não o possuímos. O ciúme se torna excessivo quando ocupa o centro da relação, quando exige provas que nunca bastam e transforma o cotidiano em interrogatório. Nesse ponto, ele já não protege o vínculo: o corrói.

Quem sofre desse modo costuma descrever uma sensação de não conseguir parar, mesmo reconhecendo que a desconfiança não tem base. Há um automatismo, algo que se repete, como se o pensamento ciumento tivesse vida própria. A pessoa pode dizer, com clareza, que confia no parceiro, e ainda assim sentir o corpo tomado por uma certeza de perda que nenhuma evidência desmonta. Para a psicanálise, o que se repete tem uma lógica, e essa lógica merece ser ouvida em vez de simplesmente combatida. O sintoma não é um erro a ser corrigido, mas uma mensagem que insiste, e que o sujeito ainda não pôde decifrar.

O que o ciúme tenta dizer

Freud, ao falar do narcisismo, mostra como o amor mobiliza a imagem que fazemos de nós mesmos (FREUD, 1914). Quando depositamos no outro a tarefa de confirmar nosso valor, qualquer sinal de que ele tem interesses, olhares ou histórias fora de nós pode ser vivido como ameaça de queda. O ciúme, então, não vigia exatamente o parceiro: vigia a possibilidade de não ser o objeto único, de não ocupar todo o lugar no desejo do outro. É menos uma defesa contra o terceiro real e mais uma defesa contra a constatação, sempre adiada, de que nunca se preenche por completo o desejo de quem amamos.

Há ainda a dimensão da demanda. Amar é, muitas vezes, pedir ao outro que nos ame de volta de um jeito que apague qualquer dúvida. Lacan trabalha como o amor envolve dar o que não se tem e supor no outro um saber sobre nós (LACAN, 1960-1961). O ciumento quer uma garantia que nenhum parceiro pode oferecer, porque o desejo, por estrutura, não se deixa capturar inteiramente. A falta de garantia é insuportável, e o ciúme tenta tamponá-la com controle. Quanto mais se controla, porém, mais a certeza escapa, pois o que se busca, no fundo, não é uma informação sobre a conduta do outro, mas uma resposta impossível à pergunta sobre o próprio lugar.

Sinais de que o ciúme está organizando a vida

  • Necessidade de checar mensagens, redes ou paradeiro do parceiro de forma constante.
  • Interpretar gestos neutros como prova de traição ou desinteresse.
  • Sensação de alívio momentâneo após a checagem, seguida de nova angústia.
  • Isolamento do casal e atritos frequentes em torno do mesmo tema.
  • Sofrimento físico: insônia, aperto no peito, pensamentos que não cessam.

A repetição e a transferência do ciúme

Um dos aspectos mais reveladores do ciúme excessivo é a forma como ele se repete de relação em relação. Não é raro que alguém troque de parceiro acreditando ter deixado o problema para trás, e que, passado algum tempo, a mesma vigilância retorne com a nova pessoa, com as mesmas suspeitas e as mesmas cenas. Isso indica que o ciúme não nasce das características de um parceiro específico, mas de uma posição do sujeito, de um modo de amar que ele transporta consigo. Há, por assim dizer, uma transferência do mesmo enredo para cenários diferentes.

Frequentemente, esse enredo reencontra cenas muito anteriores ao relacionamento atual: uma criança que se sentiu menos amada que um irmão, alguém que cresceu sob a ameaça de abandono, ou que aprendeu que o amor é sempre disputado e instável. O parceiro de hoje passa a ocupar, sem saber, o lugar de figuras antigas, e a desconfiança dirigida a ele responde, na verdade, a feridas de outra época. Reconhecer essa transferência não dissolve o ciúme num passe de mágica, mas permite que o sujeito comece a distinguir o que pertence ao presente do que vem de longe.

Escutar em vez de provar

O caminho analítico não consiste em provar que o ciúme é infundado, porque a prova nunca acalma quem está nessa posição. Cada prova oferecida é logo substituída por uma nova exigência, num círculo que não se fecha. Trata-se, antes, de deslocar a pergunta: em vez de “o que o outro está fazendo”, abre-se espaço para “o que se repete em mim quando amo”. Muitas vezes, a história do ciúme atual reencontra cenas antigas de abandono, comparação ou insegurança que pedem elaboração.

Esse trabalho acontece no tempo de cada um. Não há fórmula nem prazo. O que a escuta oferece é a possibilidade de que o sujeito reconheça a lógica do próprio sofrimento e construa outra relação com a falta, com a incerteza e com o desejo do outro, que não precisa ser dominado para que o amor seja possível. Suportar que o outro tenha um desejo próprio, que escapa em parte ao nosso controle, é o que pode tornar o laço mais respirável, para ambos.

O ciúme excessivo não mede o quanto se ama, mas o quanto se teme não ser amado. Escutar essa diferença é o começo de outra relação com o laço.

Quando procurar ajuda

Quando o ciúme passa a comandar a rotina, a gerar sofrimento intenso, conflitos repetidos ou comportamentos de controle que você mesmo reprova, vale procurar uma escuta especializada. A psicoterapia de orientação psicanalítica oferece um espaço para entender o que sustenta essa angústia, sem julgamento e respeitando o seu tempo. Buscar ajuda não é sinal de fraqueza, mas de cuidado com você e com seus vínculos.

Referências

  • FREUD, Sigmund. À guisa de introdução ao narcisismo (1914). In: Obras completas, v. 12. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
  • LACAN, Jacques. O seminário, livro 8: a transferência (1960-1961). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.

Conteúdo informativo, embasado na literatura psicanalítica; não constitui diagnóstico nem substitui atendimento individual.

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