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Por que repito os mesmos padrões nos relacionamentos?
“Sempre acabo com a mesma pessoa, só muda o nome.” A frase, dita com cansaço, descreve uma experiência mais comum do que parece: relações diferentes que desembocam na mesma decepção, no mesmo tipo de parceiro, na mesma sensação de já ter vivido aquilo antes. Diante disso, costuma-se buscar explicações de azar ou de falta de esforço. A psicanálise aposta em outra coisa: essa repetição não é acaso, e tampouco é só um erro de escolha a corrigir com mais cuidado.
A repetição não é falta de aprendizado
É tentador pensar que basta “aprender a lição” para não cair no mesmo lugar. Mas a clínica mostra que há algo que insiste para além do que sabemos sobre nós. Freud observou que reeditamos, nos laços atuais, marcas das nossas primeiras relações, modos de amar, de esperar, de temer que se formaram cedo e seguem operando sem que percebamos (FREUD, 1912). Não escolhemos repetir; é a repetição que nos escolhe, encontrando no presente um palco para uma cena antiga.
Por isso a vontade consciente de mudar tantas vezes não basta. A pessoa promete a si mesma que será diferente desta vez e, ainda assim, se vê atraída pelo mesmo tipo de vínculo. O que se repete não está à mão da decisão; está num saber que o corpo e o desejo carregam sem palavra.
O que insiste quando o padrão retorna
Cada repetição diz algo singular. Para um, o laço só “esquenta” quando há a ameaça de perder o outro; para outra, o interesse esfria assim que se sente segura. Há quem só ame quem não o escolhe de volta, e quem fuja justamente de quem fica. Esses arranjos não são defeitos a extirpar: são modos que o sujeito encontrou, um dia, de se haver com o amor, com a falta e com o desejo. Escutar o que cada padrão protege é mais fértil do que apenas condená-lo.
Falar do que se repete para sair do automático
Numa análise, não se trata de receber técnicas para escolher melhor nem de mapear “perfis a evitar”. Trata-se de dar palavra ao que insiste: o que você busca no outro, o que teme, o que se reedita quando o vínculo aperta. À medida que essa lógica ganha contorno na fala, ela perde parte do automatismo. Não porque o passado se apague, mas porque deixa de operar nas suas costas.
Sair da repetição não significa encontrar a fórmula da relação perfeita. Significa que, onde antes só havia um roteiro que se cumpria sozinho, passa a existir alguma margem de escolha, e, com ela, a chance de um laço que não seja apenas a repetição de uma cena que você nem lembrava ter começado.
Referências
- FREUD, Sigmund. A dinâmica da transferência (1912). In: Obras completas, v. 10. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
- LACAN, Jacques. O seminário, livro 8: a transferência (1960-1961). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.
Conteúdo informativo, embasado na literatura psicanalítica; não constitui diagnóstico nem substitui atendimento individual.