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Salvador (Itaigara) · atende online

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Burnout parental: o esgotamento de quem cuida

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O esgotamento não acontece apenas no emprego formal. Quem cuida de filhos, de forma intensa e prolongada, também pode chegar a um ponto de exaustão profunda, o chamado burnout parental. É um sofrimento real, ainda cercado de silêncio e de culpa, porque cuidar costuma ser idealizado como fonte apenas de amor, nunca de cansaço.

Cuidar também é trabalho

Falar em “burnout parental” pode soar estranho a quem associa esgotamento somente ao mundo corporativo. Mas o cuidado é uma forma de trabalho: exige presença, esforço, renúncia, decisões constantes, atenção que não desliga. A psicodinâmica do trabalho nos lembra que o sofrimento surge quando há uma distância grande entre o que se exige e os recursos disponíveis para dar conta, material, emocional e social (DEJOURS, 1992). Na parentalidade, essa distância pode ser enorme: exige-se quase tudo, muitas vezes sem rede de apoio, sem pausa e sem reconhecimento.

Há ainda uma particularidade do cuidado que o torna especialmente desgastante. No emprego, existem horários, fronteiras, momentos de saída. O cuidado de uma criança pequena não tem turno: ele invade a noite, o descanso, o pensamento. Dejours mostra que o trabalho real está sempre cheio de imprevistos que escapam ao que foi prescrito, e poucos trabalhos são tão imprevisíveis quanto cuidar de um filho, em que cada dia desmonta o plano do anterior. Some-se a isso a ausência, frequente, de qualquer reconhecimento externo: o cuidado bem feito é, em geral, invisível; só a falha aparece. Esse trabalho sem julgamento de utilidade nem de beleza acumula um sofrimento que não encontra destino.

O burnout parental costuma se manifestar por uma exaustão que não passa com o sono, por um distanciamento afetivo em relação aos filhos que assusta e culpabiliza, e pela sensação de não estar dando conta de ser o pai ou a mãe que se gostaria de ser. Não é falta de amor. É um corpo e uma alma que chegaram ao limite.

O peso silencioso da culpa

Um traço marcante desse esgotamento é a culpa. Admitir cansaço diante de quem se ama parece, para muitos, uma traição. Some-se a isso a pressão social por uma maternidade ou paternidade idealizada, sempre paciente, sempre disponível, sempre realizada, e o resultado é um sofrimento que se esconde até de si mesmo. Falar sobre isso, sem julgamento, já é um primeiro alívio.

Vale lembrar, sem apontar para ninguém, como esse silêncio se organiza. Há quem só perceba o quanto estava no limite quando se surpreende com a própria irritação diante de uma situação banal. Há quem evite dizer aos outros que está exausto, com medo de ser julgado como ingrato ou incapaz. Há quem compare o tempo todo a sua experiência com imagens idealizadas, de outras famílias, de redes sociais, da própria infância lembrada de forma seletiva, e se sinta sempre aquém. A culpa, nesses casos, funciona como uma segunda exaustão, sobreposta à primeira.

Reconhecer o esgotamento de cuidar não diminui o amor por quem se cuida; ao contrário, é o que pode permitir cuidar sem se perder no caminho.

O que a escuta pode abrir

A psicanálise convida a uma pergunta singular: o que, na sua história e na forma como você vive a parentalidade, faz esse cuidado pesar desse modo específico? Há ideais herdados, exigências internas, comparações, ausências antigas que ressoam no presente. Às vezes o esgotamento se liga a uma promessa silenciosa de “dar ao filho tudo o que faltou”, ou a um ideal de ser exatamente o oposto dos próprios pais, projetos que, por mais legítimos, podem se tornar exigências impossíveis. Freud situava o cuidado e os laços afetivos entre as maiores fontes de satisfação e, ao mesmo tempo, de vulnerabilidade ao sofrimento (FREUD, 1930). Cuidar nos liga profundamente ao outro, e por isso mesmo pode nos expor a um cansaço de difícil nomeação.

Mal-estar, amor e os limites do cuidar

Freud observava que nos tornamos mais vulneráveis ao sofrimento justamente onde mais amamos. Esse paradoxo ajuda a entender por que o cuidado pode esgotar tanto: não apesar do amor, mas em parte por causa dele. Amar intensamente um filho é também ficar exposto à angústia por ele, à impossibilidade de controlar tudo, à própria finitude e aos próprios limites. A cultura tende a apresentar a parentalidade como realização plena, encobrindo o mal-estar que faz parte de qualquer laço profundo. Reconhecer esse mal-estar não é fracasso: é reconhecer a condição humana de amar sem garantias. A escuta pode ajudar a sustentar essa tensão sem que ela se converta em culpa paralisante.

Escutar essa experiência não promete eliminar o cansaço da vida com filhos, que é real e legítimo. Mas pode ajudar a aliviar o peso da culpa, a reconhecer limites sem se sentir fracassado e a reencontrar margem de respiro e de decisão sobre como cuidar, inclusive cuidando de si.

Quando procurar ajuda

Vale procurar uma escuta profissional se a exaustão se tornou constante, se há distanciamento ou irritabilidade que preocupam na relação com os filhos, se o sono e o humor estão muito afetados, ou se surge a sensação de não suportar mais. A psicoterapia oferece um espaço para elaborar esse sofrimento sem julgamento. Se houver sintomas físicos importantes, pensamentos de desesperança ou risco, a avaliação médica é prioritária e deve ser buscada.

Referências

  • DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. Tradução de Ana Isabel Paraguay e Lúcia Leal Ferreira. 5. ed. São Paulo: Cortez, 1992.
  • FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). In: Obras completas, v. 18. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

Conteúdo informativo, embasado na literatura psicanalítica; não constitui diagnóstico nem substitui atendimento individual.

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