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Esgotamento profissional: quando o corpo pede pausa
Há um ponto em que o corpo decide por conta própria. A pessoa quer continuar, tem prazos, responsabilidades, uma imagem a sustentar, mas algo trava: o sono não vem, a concentração se desfaz, uma dor sem causa aparente se instala, e abrir o e-mail vira um peso físico. É como se o corpo dissesse “não consigo mais” antes que a pessoa pudesse dizê-lo em palavras.
O corpo fala o que a fala adiou
A psicanálise não vê esses sinais como meros defeitos a corrigir com remédio e descanso, ainda que ambos possam ser necessários. Ela escuta o sintoma como mensagem: algo que não encontrou via na fala encontrou no corpo um modo de comparecer. A pausa que o corpo impõe pode ser, paradoxalmente, a primeira interrupção de um ciclo em que parar parecia impossível. O sintoma, aqui, não é só obstáculo, é também uma tentativa de solução, desajeitada, para um impasse que não se deixava nomear.
“Não dá para parar”
Quem chega esgotado costuma repetir uma frase: “não dá para parar”. Vale a pena escutar essa frase de perto. O que aconteceria se você parasse? A quem você acha que estaria faltando? Muitas vezes, sob a impossibilidade de pausar há um lugar que o sujeito ocupa, o indispensável, aquele que dá conta de tudo, aquele cujo valor depende inteiramente de produzir. Dejours descreveu como o sofrimento no trabalho se enreda nessas estratégias de defesa que, por um tempo, sustentam o sujeito em pé, até não sustentarem mais (DEJOURS, 1992).
Dar palavra ao esgotamento
Reduzir o burnout a “excesso de tarefas” deixa de fora o essencial: a relação singular de cada um com o trabalho, com a exigência e com o reconhecimento. Por que esse trabalho ocupou tanto espaço? O que ele veio sustentar, que outras dimensões da vida ficaram de fora? Que ideal de si você tentou alcançar ao não recusar nada?
Na análise, não se trata de prescrever quanto descanso é preciso nem de oferecer técnicas de produtividade. Trata-se de abrir um espaço onde o esgotamento possa ganhar palavra em vez de ficar mudo no corpo. Quando o que pesa começa a poder ser dito, a pausa deixa de ser apenas colapso e pode se tornar uma chance: a de reencontrar alguma decisão sobre o próprio desejo, e não apenas sobre o que se espera de você.
Escutar o que o corpo pede quando pede pausa é começar a perguntar o que, na sua vida, ficou sem lugar.
Referências
- DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. Tradução de Ana Isabel Paraguay e Lúcia Leal Ferreira. 5. ed. São Paulo: Cortez, 1992.
- FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). In: Obras completas, v. 18. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
Conteúdo informativo, embasado na literatura psicanalítica; não constitui diagnóstico nem substitui atendimento individual.